Chegaste cá a casa de gata na mão. Sorriso gaiato. Nos olhos o desafio inadiado. Assim mesmo, a gata foi a primeira a entrar.
O filho fora imolado no altar do preconceito, sacrificado aos deuses lares. Assim mesmo.
Gatos tolero cá em casa. Crianças não. Vai-te embora.
Na cidade armada de betão armado, não te deram as boas-vindas. E tu só querias um bom-dia e um sorriso largo. Não pedias muito.
Lá em baixo, um fio de água quase seco era o rio da infância, as compotas da avó, o choro ainda incólume, o cheiro a maresia.
Ai, que assombração tomava o meu espaço, enorme, vazio!
Esta é a minha filha, cuida bem dela – disseste com olhar de sombras no rosto fechado.
E ao insólito disse nada. Assim mesmo. Pus-me lentamente a amar a gata. À distância razoável para evitar sulcos de sangue nas mãos de menina e dores de parto no ventre proscrito.
E as minhas mãos cheias de nada e minha alma de coisa nenhuma…
A gata não fazia qualquer esforço para ser amada. Estava ali. Insubmissa, esquiva. Autêntica.
Fui descobrindo que as palavras eram a real assombração. Dialogando em silêncio com a gata.
Um dia, já tinhas tomado conta do espaço, disseste: - Vou continuar a dizer bom-dia ao rio da cidade. E sorriste o sorriso vagabundo, encasulado no olhar lúcido de criança.
O que é um homem culto, amiga? Serei porventura um homem culto? O brilho dos olhos era sereno. Exigias uma resposta rotunda e negativa. A bem da verdade que habita a tua alma lunar.
Não demorei a reflectir. Tu és um homem sábio. E olhei para a gata. Que só nos teus braços se acolhe. Porto de abrigo.
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terça-feira, 31 de julho de 2007
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